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POESIA TODA

Coletânea de todos os poemas escritos por Alexandre Dale entre 1982 e 2002

Nome:
Localização: Portugal

agosto 11, 2004

PROSA OU POEMA DA URBANIZAÇÃO GERAL

UM

I.

Uma da manhã. Tectos falsos.
Campainhas. Horários.
As casas são para morar,
viver fica à porta.
Há quem use desconfiar.
Muitos, são apenas mal dispostos.
Pagam impostos.


II.

Há quem nunca esteja,
há quem esteja sempre a comer.
Vêem a televisão normativa,
chegam tarde para dormir.
Vivem de promessas — de prometer.

III.

Uma da manhã. O autor
em casa própria
fala à amante da poesia das mãos,
dos dedos que se agitam no relaxe,
e da cor muito cinzenta dos tectos falsos,
quando se olha com olhos de viajante.

IV.

Há horas do jogo de futebol internacional,
há horas do almoço e do jantar,
há horas de telenovela, de ir
à janela ver a chuva a cair,
não há horas de ritmo profundo;
o desejo surge como um grão de poeira
a incomodar os olhos, é superficial,
é as mulheres da moda
à hora do costume no snack-bar do costume.



DOIS

I.

Condenamos os imbecis,
somos todos iguais.

Pelos corredores de luxo
vou cantando em falsete
a noite silenciosa do natal,
ou uma qualquer outra canção no top efémero.
Só a solidão dos meus passos
me responde, do chão polido,
e tudo isto sou eu.

Hoje estou numa zona com criadas e empregadas,
os senhores não estão,
no céu já os esperam.
(É que aqui é um inferno,
tenebroso, aliciante,
e ninguém o diz...)

II.

Vêm-me à ideia ideias de loucura
— dizer a minha cassete toda ao contrário, por exemplo — ,
e estar atento, pôr-me fora de mim
a olhar, a ver quem é, o que diz, o que faz.

III.

A liberdade é uma complicação.
Passava tão bem sem as notícias
dos jornais, sem saber que este ano
estava a ser mau para os actores duros,
bom para investir na bolsa,
consagração absoluta do preto e do vermelho
como cores da moda.

Bêbado de um álcool atrasado
observo as montras, as capas
dos livros e dos discos, os relógios,
as bijuterias. Tantos artistas,
tanta cultura...Mas não me apetece
saber mais.

IV.

Mais uma dúzia de mulheres bem vestidas.
Do último andar destes prédios altos
deve-se ver bem, com certeza,
a pobreza do mundo à volta, as barracas,
os maus cheiros e a incrível desarrumação
das paisagens.

Ontem foi domingo,
imaginei o chá das cinco nos ingleses
e falar alto nos autocarros da carris,
e tudo isto sou eu.

Tudo isto sou eu:
ter muitos amigos,
fazer muitas festas diferentes,
poder fugir quando é isso que apetece.

Ontem foi domingo,
vi um filme americano muito antigo,
havia um homem amarelo a dizer
como a sórdida realidade
estava tão longe dos fabulosos sonhos da juventude.
Que se lixe o homem amarelo, o seu ópio,
a sua história.
A juventude falha os sonhos?
Que se lixe: sou só um tipo
a inventar o carnaval.

V.

Escrevo muito,
sou incapaz de não escrever,
a escrever vêm ideias mais exactas
conversar comigo.
E assim eu sei tudo,
e um dia destes penso: "não posso mais",
a morte não é razão, e
agarro na vida só com as mãos
e danço-a.



TRÊS

O sono instala-se no meu sonho
em camadas,
não me deixa adormecer,
de repente fico a dormir,
afinal que se passa?
Será cansaço? Será o vinho? O tabaco?
"Tudo pode acontecer(-te)",
diz-me a sibila.
"Não, não, nada disso", digo-lhe eu.
"Fala-me apenas de amor".



QUATRO

I.

Toda a gente trabalha imenso,
a língua seca-se de tanta conversa,
toda a gente tem problemas de trabalho,
todo o trabalho tem gente interessante,
os interesses de toda a gente
misturam-se num grande ruído,
chega o dia do dinheiro a receber
e é sempre pouco,
é muito engraçado pertencer à espécie
que inventou a civilização económica.

De tanto e tão pouco procuro eu espremer
uma meia dúzia de versos verdadeiros,
mas o dinheiro é escasso
e a publicidade encheu os placards
de bondosos avisos à navegação:
"fale baixo",
"circule pela direita".

Isto passa-se numa escola preparatória
e os professores são tão burros como nasceram,
são pessoas,
os alunos são miúdos
que não podem correr pelos corredores,
é preciso aprender.

É muito engraçado,
muito engraçado
— e tão triste e chateado
que nem a prosa é boa.
Isto passa-se em Lisboa,
capital de turbulências latinas,
falsa irmã de Roma nas colinas,
milhares de funcionários,
de comerciantes,
de emigrantes caídos da província
a acontecerem aqui.
Isto passa-se em Lisboa,
mas vejo cinema, documentários,
e o mundo parece-me todo igual.

II.

O meu dinheiro
está cheio de bolsos,
o meu tempo
não tem ponteiro,
a minha fome
é aquele leão
que está no cartaz
da agência de viagens
a dizer:
"visite África".
Eu sou África, mais o tempo
e o dinheiro e o leão.
Eu sou a beleza.



CINCO

Hoje é que é,
hoje é que é o problema da urbanização,
hoje é português até dizer "basta",
é cães de estimação, é velhos
do tempo da monarquia
e mães de família com trela
na cozinha,
é uma zona da cabeça
que me dói por capricho,
é a vida,
exploração,
política,
palavras
e histórias.



SEIS

...E o mundo torna a zero:
torna a haver troca de vestuário por comida,
e deixamos de aturar filhos da puta,
porque os filhos da puta deixam de existir.
O mundo torna a zero:
o homem faz a curva certa do gráfico
e torna-se finalmente adulto,
deixa de ter campeões,
de usar o orgulho como arma
contra a eterna solidão do universo.

Agora, que me querem? Ordenam:
trabalha.
E o que é o trabalho?
É ser boi, parente do burro, porco,
entrega completa do que sou
ao que não sou — como se o trabalho
fosse tudo
o que um homem pode.

Por isso quero
que o mundo regresse a zero,
quero o zero como número perfeito e ideal,
redondo, aberto,
imagem da terra que piso
com os meus pés animais,
o zero igual
a prados verdejantes,
a ossadas de elefantes
em cemitérios secretos,
cemitérios verdejantes
onde os homens se sentam
sobre os ossos
a cantar.



SETE

Conquista-se o trabalho
quando se esquece o tempo
em nome do prazer.

Tudo o mais é rime,
ou ser sim porque sim,
em nome da estupidez.

Escuto a muda voz da consciência
e ela só me diz que corra
a minha corrida com a minha camisola.
O meu suor não deseja ser laureado
por quem já não está a correr.
O meu suor não pinga em secretárias.
O meu desejo é soberano.
O meu poema é de ouro.



OITO

I.

Vinde a mim os rabiscos mágicos,
as deusas do pão,
os gatos, os cães grandes,
as crianças com risos, ao longe.
Vinde a mim as mulheres,
a música a sair pelas janelas,
os beijos trocados no lusco-fusco,
o silêncio, a relva viçosa
e as luzes da cidade grande, ao longe.
Vinde a mim o cinema
dos gestos, as cafeteiras cheias de café,
o conhecimento da dança,
a água fria a lamber margens
e as ilhas do prazer, no horizonte, ao longe.

II.

Negociações à vista:
troco a minha simpatia
por um chapéu com pluma,
por exemplo.
B. diz que só se vende por um preço difícil.
Há quem não compre.
Há quem compre relógios
e só leve as horas,
há quem leve no corpo
e lhe doa a cabeça.
X. não tem interesse,
só conta anedotas atrasadas.
Z. é bom rapaz, diz:
"ainda bem que há trabalho".
À hora do almoço é que é bom:
caem ministérios
e nascem ministérios,
ninguém rosna,
a civilização também
mora na pobreza,
e sobra sempre um osso para o cão,
que esse é que é bicho.
Negociações:
que tal uma bebida, para começar?
E fofoquices. Falamos
do resto depois. Vejamos.
Eu conheço tudo, sei muito.
Quem vier comigo não morrerá.
Falemos da tesão, também.
Chamemos-lhe amor.
"Ó mar ó mar ó mar",
ah, isto é um poema.
Você é poeta?
Também se nota.
E negociações?
Tudo é possível.
é preciso pôr a mesa,
mandar vir copos de água,
cinzeiros, canetas, papéis.
Depois vem a imprensa,
encostam-se, acotovelam-se,
e o director afirmará,
com ar bonacheirão:
"o encontro foi muito positivo".
OK.

III.

Tens razão, e eu também:
eu, ser, era o meu covil de lobo,
as minhas coisas íntimas, sob um tecto,
aquele carro vermelho de que falo sempre
e dinheiro para gastar,
a minha música, as minhas palavras
branco no preto e preto no branco.
Eu, ser, era sempre não saber
a hora seguinte, o improviso,
o pôr do sol na milésima noite,
era o cinema como coisa de doer,
drama, comédia, paixão.

Em vez disso são portas estranhas,
e uma força que tenho de roubar
a não sei que entranhas
para falar com gente fechada.
É o mundo cercado por um muro,
tentação de fuga, canções a metro.
Apetece explodir, entretanto —
rasgar os tecidos que sobrevoam a pele,
libertar-me até deste papel
onde tudo é tão fácil,
deslizante — nunca amor.



NOVE

I.

Pede-se a um homem
que ele faça um poema,
pede-se a um poema
que seja realidade,
pede-se à realidade
que nos deixe de fora,
que nos ponha no ar,
que nos deixe viajar
pelo eixo do mundo,
a ver paisagem,
a gastar o tempo,
a esquecer.

II.

De todas as drogas sei os nomes,
os efeitos,
e, contudo, não sei delas.
Dizem-me que é as mulheres,
a velocidade, as plantas artificiais
— até mesmo certas noites tropicais
de bebidas e luar
e silhuetas nas janelas.
dizem-me que o que conta
é não abusar,
medir as medidas,
saber o tempo exacto
para cada jogada.
E eu, que tudo sei,
não sei nada.
Leio o nome das ruas.
Pequenos instantes
fora de tudo.
Fantasmas.
A vida.



DEZ

À superfície está a máscara,
e é real.
É real a caveira
que ninguém conhece.
São reais os antepassados,
e é realidade a novidade
de cada homem.
São reais também
os astros, as formas,
as texturas
e as recordações.
A realidade é sempre dupla,
é sempre carne e osso,
máscara e caveira,
beijo dado
e beijo recebido.
(Beijo trocado).



ONZE

I.

As pessoas são mentira,
são mentira as pessoas.
É mentira as roupas,
falsas são as maquilhagens,
e mentira é
tudo o que se diz que se é,
tudo o que se diz que se quer,
tudo o que se diz que se faz.
As pessoas são fúteis, são sopas,
são sonhos maiores que elas próprias,
as pessoas são sapos, cangurus,
cágados, elefantes, cobras, mochos,
melgas, moscas, merdas.
O que as pessoas querem
é o que as pessoas querem?
As pessoas não sabem o que querem.
As pessoas são mentiras,
indiferenças e crenças e crianças.
Tudo nas pessoas é maior que elas.
As pessoas são o preço e a embalagem.
As pessoas sou eu, por exemplo,
porque não sei o que sou,
sou tudo,
tudo quero.
/.../
As pessoas são o dia mundial do não fumador
e os lucros da Tabaqueira.
As pessoas são amigas dos animais que são,
são palitos para os dentes,
são bichos-da-seda só com tempo para o fio.
/.../



DOZE

A minha vida é uma teia-de-aranha,
inúmeros fios sedosos dispostos de uma forma harmoniosa.
As pessoas da minha vida são moscas
que eu convido para tomar café, fumar cigarros,
beber whisky de doze anos.
Sou uma aranha sem rebanho,
não como ninguém.
Quando tenho fome, partilho-a,
e o alimento é uma perna das minhas,
ou uma perna das tuas, tanto faz,
porque as nossas pernas
são daquelas que tornam a crescer.



TREZE

Vezes sem conta chamo
a besta do calor
do fundo do meu ser,
mas ela não vem.

Estás a olhar para mim.
Será que estás a ver?
Outros são os dentes
que me hão-de comer.

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